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A
palavra cocho é empregada pelo homem do campo, referindo-se
a uma tora de madeira escavada, formando uma espécie de recipiente.
A viola de cocho, encontrada no estado de Mato Grosso, recebe este
nome, porque é confeccionada em um tronco de madeira inteiriço,
esculpido no formato de uma viola, e escavado na parte que corresponderia
à caixa de ressonância. Neste cocho, no formato de
viola é afixado um tampo, e em seguida, as partes que caracterizam
o instrumento, como o cavalete, o espelho, o rastilho e as cravelhas.
0 seu comprimento é em torno de 70 cm por 25 cm, com 10 cm
de largura. Algumas violas possuem um pequeno furo circular no tampo,
medindo de 0,5 a 1 cm de diâmetro, outras não apresentam
furo. A viola sem furo no tampo é coisa recente, os violeiros
antigos a preferem com o furo, pois no dizer de um destes violeiros,
"o furo é prá voz ficá mais sorta, sem
o furo a zoada fica presa". 0 braço da viola, juntamente
com a paieta (cravelha, é bem reduzido, medindo em torno
de 25 cm. O cocho é de muita utilidade no campo, e se presta,
principalmente, à alimentar os animais domésticos.
A paieta, geralmente, faz um ângulo bem acentuado com o corpo
do instrumento, e possui cinco ou seis furos. Este instrumento apresenta
sempre cinco ordens de cor das, com as cinco cordas singelas, ou
com quatro singelas mais um par. Neste caso, a terceira ordem consistiria
de um par de cordas afinado em oitava. Também é encontrada
viola com seis furos na paieta, mas com apenas cinco cravelhas.
As madeiras utilizadas na sua construção são
várias: para o corpo do instrumento as preferidas são,
a Ximbuva e o Sarã; para o tampo, Figueira branca, e para
as demais peças, o Cedro. A maioria das violas de cocho se
armam com cinco cordas singelas, quatro de tripa e uma de aço.
Atualmente as cordas de tripa estão sendo substituídas
por linhas de pesca, devido a proibição de caça
na região. Estas, de acordo com os violeiros, são
bem inferiores às de tripa. A corda de aço tem o nome
de "canotio", e tem, aproximadamente, o mesmo calibre
da quarta corda do violão. Os nomes das cordas são
os seguintes: prima, segunda ou contra, do meio ou terceira, canotio
e corda de cima. A preparação da tripa, para a confecção
das cordas, é muito rudimentar, para explicar o procedimento
adotado, transcrevemos, abaixo, os depoimentos de alguns violeiros,
quando indagados sobre esse assunto. - "Ah! isto é fácil,
o sinhô mata o animá, tira a tripa, e limpa bem por
fora, vira ela e limpa bem por dentro, bem limpadinho. 0 sinhô
marra um fio dum lado e dôtro e troce bem trucido. Estira
o fio duma árvore a otra, põe um pesinho e pronto.
Ele vai estirano... estirano, vai secano. Ah! fica que... uma beieza!!!"
-- Sr. Gregório José da Silva, 74 anos, cururueiro
- Poconé-MT, em 1983. - "Tira toda a tripa do Ouriço
e começa a limpá com a unha, tira a carne de cima
ficano a pura tripa. Depois vira ela, prá limpá por
dentro e sair o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce
a tripa bem trucida e estira ela. Deixa secá e pronto.
Aqui é muito difícil prá gente ter a corda,
no sítio tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues,
81 anos, cururueiro - Poconé-MT, em 1 953. ficano a pura
tripa. Depois vira ela, prá limpá por dentro e sair
o limbo. Quando sai o limbo fica bem alvinho!, troce a tripa bem
trucida e estira ela. Deixa secá e pronto. Aqui é
muito difícil prá gente ter a corda, no sítio
tem muita!" -W- Sr. Edézio Paz Rodrigues, 81 anos, cururueiro
- Poconé-MT, em 1 953.
- "A tripa é o seguinte: Ocê pega a tripa e tira
todo o ligume, toda massa, depois de tirar toda massa, tem que rapá
a carne que tem por dentro. Por cima é uma pele muita fina...
vira do avesso e vai rapano com muita ciência, quase não
é passado unha, só com a força do dedo. Ocê
faz uma cumbuquinha de foiha, coloca a tripa dentro e urina dentro,
deixando passá uma meia hora, uma hora, na urina, prá
curtí, prá dá mais resistência. Então
agora vai levá num lugar de ispichá e, de acordo,
com a grossura que ocê quer a corda, ocê vai botá
peso, uma pedrinha marrada num fio bem no meio dele. Se quer que
ela fica mais grossa, tem que botá peso menos, quer que ela
fique mais fina, tem que botá peso maió... tem que
torcê que fica turcidinha. 0 Ouriço dá doze
cabeça de corda, dá prá encordoá uma
viola, inda sobra..." - Sr. Manoel Severino de Moraes, 54 anos,
artesão de viola de cocho e cururueiro - Cuiabá-MT,
em 1 981. São vários os animais, cujas tripas são
empregadas na confecção de cordas, os preferidos são:
0 Ouriço-Cacheiro (Porco-Espinhol, o Bugil (espécie
de macacol, a Irara, o Macaco-Prego e Porca magra. A tripa de gato,
apesar de dar uma boa corda, não é usada, porque,
numa roda de cururu, se alguma viola estiver encordoada com cordas
de tripa de gato, em pouco tempo começa a surgir brigas entre
os violeiros. A tripa degado não é usada porque é
pouco resistente, "não guenta um toque". A do Macaco-Prego
é muito usada, mas somente na época em que ele não
está comendo formigas. Os violeiros afirmam que suas tripas
ficam cheias de nós, provenientes das picadas destas, quando
engolidas vivas. A viola de cocho é um instrumento bem primitivo,
o número de pontos, ou trastos, varia entre dois a três.
Quando a viola possui três pontos, o intervalo entre eles
é de semitom, quando possui dois pontos, o primeiro dá
o intervalo de um tom, e o segundo de semitom. Os pontos são
feitos de barbante, amarrados bem firmes, e revestidos com cêra
de abelha, para que prendam melhor na madeira, no dizer do violeiro
"prá garrá, prá firmá, senão
ele joga... tano seco ele joga". A colagem das partes é
feita usando o sumo da batata de sumaré (planta de região
úmida), ou, na fala desta, um grude feito da "paca"
da piranha, uma pequena tripa, também conhecida por bexiga
natatória. A viola de cocho é usada, principalmente,
para o cururú e o siriri, funções bem populares
em Mato Grosso, mas também é usada para o rasqueado.
Ela possui duas afinações básicas, a afinação
"canotio solto" e a afinação "canotio
preso", sendo muito semelhantes entre si.
Os acordes mais usados são os de Tônica e Dominante
com sétima e raramente o de Sub-Dominante. No siriri, onde
a Sub-Dominante é mais usada, a afinação empregada
é a de "canotio preso", para que esse acorde seja
armado com apenas dois dedos. O interessante é que essa mesma
armação é muitas vezes usada com a afinação
"canotio solto".
As informações deste capítulo
foram colhidas por E. Travasso e o autor, em pesquisa do instituto
Nacional do Folclore, FUNARTE,
em Mato Grosso.
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